Os pés sangrando, cabe a nós, por nossa vez,
Filtrar nos karmas mais cruéis e mais mesquinhos
Crueza e intentos de perfídia e insensatez...
Se tropeçamos ou caímos, pouco importa,
Pois isso em nada o fluxo do universo altera.
Ponta de pedra amputa, talha, extirpa e corta,
Purgando as crostas, vinho impuro na cratera.
Fica pra trás toda a lisura do que é findo.
Pisando em cacos, evitando-os se o pudermos,
Em carne viva ou ilesos, vamos indo.
Textos akáshicos, em prosa ou poesia,
Vão registrando, no entre mundos, dimensões,
Formando o Livro que é composto de energia.
O que escrevo
O que escrevo vem de mim, me subjuga.
Já até tentei calar, manter silente
Esse fogo que o meu prantear enxuga.
Mas de nada me valeu até o presente.
Vaidade nunca tive com meus versos,
Eles surgem logo após a contração.
Ventre lírico num parto bem transverso,
Pois que nascem sempre gêmeos e pagãos.
Sem magia, o amadorismo rege a pena e
De uma fonte, que eu não sei qual é, respinga
Rima fácil, poesia que é tão plena!
Eu então deixo que venham desse jeito,
Doloridos, iguaizinhos e impacientes.
Só assim sinto limpar-me o inulto peito...
Já até tentei calar, manter silente
Esse fogo que o meu prantear enxuga.
Mas de nada me valeu até o presente.
Vaidade nunca tive com meus versos,
Eles surgem logo após a contração.
Ventre lírico num parto bem transverso,
Pois que nascem sempre gêmeos e pagãos.
Sem magia, o amadorismo rege a pena e
De uma fonte, que eu não sei qual é, respinga
Rima fácil, poesia que é tão plena!
Eu então deixo que venham desse jeito,
Doloridos, iguaizinhos e impacientes.
Só assim sinto limpar-me o inulto peito...
Traço sutil
De pele macia, veneno em poção,
Sou bruxa e princesa, sou ilusionista.
Meu traço é sutil, sou instinto e razão,
Qual Eva esculpida por um deus artista.
Siso de senhora em riso de menina,
Mistério contido por baixo do véu.
Capricho, incoerência, ilusão - minha sina.
Criatura pagã e tão perto do céu!
Meus tons cor-de-rosa e vermelho paixão,
Tua esfera sublime no vão da retina,
Sou anjo e animal, sou pra ti, sedução.
Fatio tua alma em camadas tão finas
E habito recintos do teu coração...
Carrego comigo essa bênção divina.
Sou bruxa e princesa, sou ilusionista.
Meu traço é sutil, sou instinto e razão,
Qual Eva esculpida por um deus artista.
Siso de senhora em riso de menina,
Mistério contido por baixo do véu.
Capricho, incoerência, ilusão - minha sina.
Criatura pagã e tão perto do céu!
Meus tons cor-de-rosa e vermelho paixão,
Tua esfera sublime no vão da retina,
Sou anjo e animal, sou pra ti, sedução.
Fatio tua alma em camadas tão finas
E habito recintos do teu coração...
Carrego comigo essa bênção divina.
Lúdico
Há esse medo aterrador junto comigo,
Diabólico leão que ruge e vibra,
Incapaz de reagir frente ao perigo,
Esbraseado, enquanto luta e se desfibra.
Faz-se pó, poeira densa, arranha o tino,
Cai e rola, se desprende e as rédeas solta.
A galope, a fera grita e canta um hino
Que desata, e jorra em pranto a vã revolta.
Olho o céu e só me vem que a lua é calva
Há fantasmas desenhados como em tela.
Já em plena madrugada etérea e alva,
Na garganta, o choro estanca, preso a ela.
E um poema vomitado então se lança,
Os seus versos são brinquedos de criança...
Diabólico leão que ruge e vibra,
Incapaz de reagir frente ao perigo,
Esbraseado, enquanto luta e se desfibra.
Faz-se pó, poeira densa, arranha o tino,
Cai e rola, se desprende e as rédeas solta.
A galope, a fera grita e canta um hino
Que desata, e jorra em pranto a vã revolta.
Olho o céu e só me vem que a lua é calva
Há fantasmas desenhados como em tela.
Já em plena madrugada etérea e alva,
Na garganta, o choro estanca, preso a ela.
E um poema vomitado então se lança,
Os seus versos são brinquedos de criança...
Lucidez
Por veios e trajetos, de soslaio,
Vertendo pelas frestas da agonia,
Do sangue caudaloso, do desmaio,
Da morte rasa e lenta, pra porfia.
Pequena chama até então cativa,
Aqui e ali, por culpa do descaso,
Incita já a fogueira e a reaviva,
Afasta a inanição, obra do acaso.
Miséria humana a estada nesse mundo,
Pois faz de nós tão sós na multidão,
Numa existência fútil, desvalida,
Em busca de um tão vão saber profundo,
Que não nos leva a nada e é ilusão,
Fingindo dar sentido pra essa vida.
Vertendo pelas frestas da agonia,
Do sangue caudaloso, do desmaio,
Da morte rasa e lenta, pra porfia.
Pequena chama até então cativa,
Aqui e ali, por culpa do descaso,
Incita já a fogueira e a reaviva,
Afasta a inanição, obra do acaso.
Miséria humana a estada nesse mundo,
Pois faz de nós tão sós na multidão,
Numa existência fútil, desvalida,
Em busca de um tão vão saber profundo,
Que não nos leva a nada e é ilusão,
Fingindo dar sentido pra essa vida.
Apelo ao deus Chronos
Ah, tempo, tu consomes meus ensejos,
Somente fazes deles o desvelo
Teórico, calado por meus pejos,
E acalmas-me o espírito ao não crê-lo.
Então dá-me o arrimo e o consolo
Na cura pra melancolia vã,
Pro ter saudade, sentimento tolo,
Que é febre inulta, estéril e tão malsã!
Desdém pra crença na felicidade,
Ignoto desespero em agonia,
De um’alma torturada e assim vencida.
Abstém-me da absurda hilaridade,
Do escárnio e da ridícula ironia
De eu reputar-me morta em plena vida.
Somente fazes deles o desvelo
Teórico, calado por meus pejos,
E acalmas-me o espírito ao não crê-lo.
Então dá-me o arrimo e o consolo
Na cura pra melancolia vã,
Pro ter saudade, sentimento tolo,
Que é febre inulta, estéril e tão malsã!
Desdém pra crença na felicidade,
Ignoto desespero em agonia,
De um’alma torturada e assim vencida.
Abstém-me da absurda hilaridade,
Do escárnio e da ridícula ironia
De eu reputar-me morta em plena vida.
Salto Quântico
Não importa a longitude dessa vida
Nem o tempo que levar pra que esmoreça,
Encho o cálice com o fel da despedida
Nele cuspo, o quebro e deixo que feneça.
Corrosiva a flor magoada na ferida,
Que se espalha, intentando que apodreça
Corpo e mente que não servem mais pra lida,
Pois que, então, lhes foi lavrada tal sentença.
Já descrente, com arroubos de homicida,
Perco a fé e peço a Deus que me enlouqueça,
Pra evitar a dor de ver-me assim perdida.
Desafeta condição, até que eu esqueça
E que molde uma existência já parida,
Paralelamente rasa e vã - travessa...
Nem o tempo que levar pra que esmoreça,
Encho o cálice com o fel da despedida
Nele cuspo, o quebro e deixo que feneça.
Corrosiva a flor magoada na ferida,
Que se espalha, intentando que apodreça
Corpo e mente que não servem mais pra lida,
Pois que, então, lhes foi lavrada tal sentença.
Já descrente, com arroubos de homicida,
Perco a fé e peço a Deus que me enlouqueça,
Pra evitar a dor de ver-me assim perdida.
Desafeta condição, até que eu esqueça
E que molde uma existência já parida,
Paralelamente rasa e vã - travessa...
Única
Eu quero ser a única saudade,
Fazendo eco dentro da tua mente.
Eu mesma, aquela ânsia que te invade
Nas horas de sossego, de repente.
Ser força tão marcante e tão presente,
Pra estar constante nos teus pesadelos;
A essência desse vento que tu sentes,
De súbito, a enroscar em teus cabelos.
Contigo, de mãos dadas pela rua,
Andar e só sorrir e fazer graça e
Deitar na tua rede, olhando a lua...
Dançar contigo músicas na praça,
E, depois disso, amor, então ser tua,
A musa em todo verso que tu faças...
Fazendo eco dentro da tua mente.
Eu mesma, aquela ânsia que te invade
Nas horas de sossego, de repente.
Ser força tão marcante e tão presente,
Pra estar constante nos teus pesadelos;
A essência desse vento que tu sentes,
De súbito, a enroscar em teus cabelos.
Contigo, de mãos dadas pela rua,
Andar e só sorrir e fazer graça e
Deitar na tua rede, olhando a lua...
Dançar contigo músicas na praça,
E, depois disso, amor, então ser tua,
A musa em todo verso que tu faças...
Fome de Amor
A toda hora, qual fosse um quebrante,
E, a todo o instante, um querer me devora.
É interessante o rubor que me cora,
Fora, senhora, e por dentro uma errante.
Não tem um nome o clamor que me invade,
E, sem alarde, me gera essa fome.
Essa vontade que já me consome,
Que nunca some e é um instinto covarde.
Eu tanto anseio que espanto esse medo,
Num arremedo de sonho e enleio.
Só no meu seio eu o guardo em segredo.
Mas não me apraz um prazer corrompido,
Nem o estampido em paixão satisfaz...
Eu busco a paz por detrás do alarido.
E, a todo o instante, um querer me devora.
É interessante o rubor que me cora,
Fora, senhora, e por dentro uma errante.
Não tem um nome o clamor que me invade,
E, sem alarde, me gera essa fome.
Essa vontade que já me consome,
Que nunca some e é um instinto covarde.
Eu tanto anseio que espanto esse medo,
Num arremedo de sonho e enleio.
Só no meu seio eu o guardo em segredo.
Mas não me apraz um prazer corrompido,
Nem o estampido em paixão satisfaz...
Eu busco a paz por detrás do alarido.
Vigília
Só sua ausência já me rouba a calma,
Toma-me o sono e me envenena a lida,
Fazendo dela lágrima e ferida,
E com mil lanças me perfura a alma.
Faz-me sangrar o timbre dessa voz,
E do seu cheiro, o recordar me fere.
O espanto em medo a esse sonhar adere,
Quando, em vigília, paro e penso em nós.
Na sua vida eu sempre fui segredo,
Uma lembrança boa, um bem-querer,
E, do Pulsar, somente o arremedo...
Eu temo que ele, ao me lembrar, murmure
O nome dela no lugar do meu,
E que essa mágoa em mim jamais se cure.
Toma-me o sono e me envenena a lida,
Fazendo dela lágrima e ferida,
E com mil lanças me perfura a alma.
Faz-me sangrar o timbre dessa voz,
E do seu cheiro, o recordar me fere.
O espanto em medo a esse sonhar adere,
Quando, em vigília, paro e penso em nós.
Na sua vida eu sempre fui segredo,
Uma lembrança boa, um bem-querer,
E, do Pulsar, somente o arremedo...
Eu temo que ele, ao me lembrar, murmure
O nome dela no lugar do meu,
E que essa mágoa em mim jamais se cure.
Faíscas nos olhos
Teorizo a matéria em vazios,
Espalhando migalhas na mesa.
Tenho n’alma um terreno baldio
E sou cúmplice, invento a surpresa.
Num pé d’água em desterro que cai,
Com faíscas nos olhos, despejo
Baço mar de friezas que vai
Já castrando e calando o desejo.
Sol que arde em mormaços febris,
Eu recorto horizontes num lume,
Sucessão inconstante de agoras...
Tatuagens em mim eu que fiz,
Sou um bicho com garras em gume,
Afiadas, magoam... esporas.
Espalhando migalhas na mesa.
Tenho n’alma um terreno baldio
E sou cúmplice, invento a surpresa.
Num pé d’água em desterro que cai,
Com faíscas nos olhos, despejo
Baço mar de friezas que vai
Já castrando e calando o desejo.
Sol que arde em mormaços febris,
Eu recorto horizontes num lume,
Sucessão inconstante de agoras...
Tatuagens em mim eu que fiz,
Sou um bicho com garras em gume,
Afiadas, magoam... esporas.
Ambidestria
O pranto, o vento, o vinho, a noite, o culto,
Paixões intensas que a nós dois comovem.
Compomos juntos esse verso inulto,
Para externar sentidos que nos movem.
Pranteando os ais da vida e haurindo o vento,
Sem fé que somos, só cultuamos nós
Sabor do vinho, nessa noite o alento.
- Estamos juntos, apesar de sós -
Nós propusemos essa ambidestria,
Satisfazendo a nossa fantasia,
Com gosto novo e busca de aventura.
Se fomos feitos de ânsia e de poesia,
Pois que tomados somos de procura,
Quem somos nós, o que noss’alma augura?
Paixões intensas que a nós dois comovem.
Compomos juntos esse verso inulto,
Para externar sentidos que nos movem.
Pranteando os ais da vida e haurindo o vento,
Sem fé que somos, só cultuamos nós
Sabor do vinho, nessa noite o alento.
- Estamos juntos, apesar de sós -
Nós propusemos essa ambidestria,
Satisfazendo a nossa fantasia,
Com gosto novo e busca de aventura.
Se fomos feitos de ânsia e de poesia,
Pois que tomados somos de procura,
Quem somos nós, o que noss’alma augura?
Mormaços
Busquei na memória naquele segundo
Pela calmaria, após tempestade.
Se o tempo parasse - nem vão nem fecundo -
Restolhos havidos viraram saudade.
Ninguém pra contar, dividir sentimentos.
Pecados guardados em quantuns possíveis
Ficaram na tela só em bits, fomentos
Pra serem lembrados... nem mesmo mais críveis...
Comicham mormaços e geram descrença:
Se tudo foi sonho e a memória me trouxe,
O tempo se conta a partir da lembrança?
Passado ou futuro? Não faz diferença,
Podia ser hoje e é como se fosse,
Pois foram momentos sentidos - herança.
Pela calmaria, após tempestade.
Se o tempo parasse - nem vão nem fecundo -
Restolhos havidos viraram saudade.
Ninguém pra contar, dividir sentimentos.
Pecados guardados em quantuns possíveis
Ficaram na tela só em bits, fomentos
Pra serem lembrados... nem mesmo mais críveis...
Comicham mormaços e geram descrença:
Se tudo foi sonho e a memória me trouxe,
O tempo se conta a partir da lembrança?
Passado ou futuro? Não faz diferença,
Podia ser hoje e é como se fosse,
Pois foram momentos sentidos - herança.
Ao Homem
Mulher difere bem de uma escultura,
Perfil de traço fino e arredondado,
Sutil leveza, encantos e ternura...
Se traz pra si deslumbres e cuidados
Dos homens a que atrai a todo o instante,
Feitiço está no olhar que se apaixona.
Não vem a ser só pura e cativante,
Sensível, delicada ou bela dona.
Se sofre e chora a dor de uma saudade,
Na vida e em suas nuances mais singelas,
Possui, contudo, o dom de ver beleza.
Há nela força e personalidade...
Pressente as tuas queixas e querelas
Lá do alto do seu porte de princesa.
Perfil de traço fino e arredondado,
Sutil leveza, encantos e ternura...
Se traz pra si deslumbres e cuidados
Dos homens a que atrai a todo o instante,
Feitiço está no olhar que se apaixona.
Não vem a ser só pura e cativante,
Sensível, delicada ou bela dona.
Se sofre e chora a dor de uma saudade,
Na vida e em suas nuances mais singelas,
Possui, contudo, o dom de ver beleza.
Há nela força e personalidade...
Pressente as tuas queixas e querelas
Lá do alto do seu porte de princesa.
Ao Bardo
É burilando no metro tuas musas
E construindo em essência a poesia,
Que do compasso sonoro tu abusas,
Pois que te surge do nada e é alforria.
Enfim dominas magia e condão.
Tu vais cifrando, elidindo e rimando,
Para dar música a uma canção
Que ecoa em ti já num ritmo brando.
Poeta, encantas a mim, sobretudo,
Com o teu verbo de tal precisão,
Que vais despindo e tornando desnudo
Bem lá no ato da sua criação.
Ah! Tu penetras do poema, no abismo,
Em paroxismos de entrega e paixão...
E construindo em essência a poesia,
Que do compasso sonoro tu abusas,
Pois que te surge do nada e é alforria.
Enfim dominas magia e condão.
Tu vais cifrando, elidindo e rimando,
Para dar música a uma canção
Que ecoa em ti já num ritmo brando.
Poeta, encantas a mim, sobretudo,
Com o teu verbo de tal precisão,
Que vais despindo e tornando desnudo
Bem lá no ato da sua criação.
Ah! Tu penetras do poema, no abismo,
Em paroxismos de entrega e paixão...
Purificação
O fruto falho flui do frio afeto,
Famigerado e insólito embrião.
Ferido, fulminado, o desafeto,
Fruindo em flor, fecundo coração.
Porção fatídica ofertada ao feto,
Queimada a ferro e fogo, em erosão.
Bicho que gane, palavreando quieto,
Na alma do animal que cinge ao chão.
Diáfanas perfídias derradeiras
Nos falsos fariseus forçando as beiras
De fibras malfadadas por feição.
Funestas formas fúteis na lareira,
Fantasma dum final feliz, fração
De feixes de fumaça e aflição.
Famigerado e insólito embrião.
Ferido, fulminado, o desafeto,
Fruindo em flor, fecundo coração.
Porção fatídica ofertada ao feto,
Queimada a ferro e fogo, em erosão.
Bicho que gane, palavreando quieto,
Na alma do animal que cinge ao chão.
Diáfanas perfídias derradeiras
Nos falsos fariseus forçando as beiras
De fibras malfadadas por feição.
Funestas formas fúteis na lareira,
Fantasma dum final feliz, fração
De feixes de fumaça e aflição.
Apenas Humana
Num salmo ao demônio, xingo teu Deus,
Que não existe e prescinde de aplauso.
Instinto e razão, há males que causo,
Santos pra mim, podem ser erros teus.
Dores e mágoas me afastam do Todo,
Sei, não sou boa e percebo isso já.
Sensível que sou, tampouco sou má,
Qual a flor pura brotando do lodo.
Se perco o senso, é porque sou humana.
Falo o que sinto, pois não sou perfeita
Eu nem sequer pro amor fui eleita,
Felicidade a que sou pouco afeita.
Enredo-me em teias e sou mundana,
Sou casta e pagã, sagrada e profana.
Que não existe e prescinde de aplauso.
Instinto e razão, há males que causo,
Santos pra mim, podem ser erros teus.
Dores e mágoas me afastam do Todo,
Sei, não sou boa e percebo isso já.
Sensível que sou, tampouco sou má,
Qual a flor pura brotando do lodo.
Se perco o senso, é porque sou humana.
Falo o que sinto, pois não sou perfeita
Eu nem sequer pro amor fui eleita,
Felicidade a que sou pouco afeita.
Enredo-me em teias e sou mundana,
Sou casta e pagã, sagrada e profana.
Um Quê de Caos
Eu calo a minha alma a Vos ouvir,
Pois se sois Deus, renascereis em mim.
E se criastes meu começo e fim,
Cá dentro então Vos poderei sentir.
Quero um resumo em Vossa mente ser,
Pois também sou do mundo esse pulsar.
Eu acrescento a um tão sagrado olhar
Um quê de caos, de místico prazer.
Quero o infinito como enfim meu lar,
Estar no cosmo mesmo que transverso,
Já conhecer-me, ser meu bem-estar;
Ser consciência livre no Universo,
Todo o mistério abrir e clarear,
E ver que o céu só se descreve em verso...
Pois se sois Deus, renascereis em mim.
E se criastes meu começo e fim,
Cá dentro então Vos poderei sentir.
Quero um resumo em Vossa mente ser,
Pois também sou do mundo esse pulsar.
Eu acrescento a um tão sagrado olhar
Um quê de caos, de místico prazer.
Quero o infinito como enfim meu lar,
Estar no cosmo mesmo que transverso,
Já conhecer-me, ser meu bem-estar;
Ser consciência livre no Universo,
Todo o mistério abrir e clarear,
E ver que o céu só se descreve em verso...
Cortina Picotada
Tenho contigo, morte, encantamento,
Nós somos ambas lavas bem antigas.
Por termos em comum dor e tormento,
As duas nos tornamos já amigas,
Qual ímãs, atraímos a alma triste,
Perdida, já sem rumo e amargurada...
Pois, companheira minha, em nós existe
Saudade que não pode ser curada.
Em nosso cerne, vozes espectrais
- Lamentos vãos e tão pungentes gritos -
Há inferno e céu, em que eu não acredito.
Há sofrimentos, bem conheço quais,
E lágrimas que ligam-me ao meu pai:
- Cortina picotada pro infinito...
Nós somos ambas lavas bem antigas.
Por termos em comum dor e tormento,
As duas nos tornamos já amigas,
Qual ímãs, atraímos a alma triste,
Perdida, já sem rumo e amargurada...
Pois, companheira minha, em nós existe
Saudade que não pode ser curada.
Em nosso cerne, vozes espectrais
- Lamentos vãos e tão pungentes gritos -
Há inferno e céu, em que eu não acredito.
Há sofrimentos, bem conheço quais,
E lágrimas que ligam-me ao meu pai:
- Cortina picotada pro infinito...
Feito Louca
Se passo a imagem de mulher já feita
Iludo a quem me vê por esse prisma,
Pois basta olhar de novo e tal sofisma
Já se desfaz por si... tão imperfeita!
Criança, velha e triste, que não sabe
Ou aprendeu da vida coisa pouca.
Poeta, supre em versos, feito louca
Aquilo que não tem ou não lhe cabe.
Os medos que carrego já os disse,
De ficar só, sequer ser tua amiga,
Da morte e do viver sem argumentos.
Mas o pior que tenho é o da sandice,
Da mágoa que me vem qual praga antiga
E faz que eu seja só ressentimentos.
Iludo a quem me vê por esse prisma,
Pois basta olhar de novo e tal sofisma
Já se desfaz por si... tão imperfeita!
Criança, velha e triste, que não sabe
Ou aprendeu da vida coisa pouca.
Poeta, supre em versos, feito louca
Aquilo que não tem ou não lhe cabe.
Os medos que carrego já os disse,
De ficar só, sequer ser tua amiga,
Da morte e do viver sem argumentos.
Mas o pior que tenho é o da sandice,
Da mágoa que me vem qual praga antiga
E faz que eu seja só ressentimentos.
Sem Asas
O ocaso vem, derruba meus castelos
E vão-se, um a um, se desmanchando,
Declínio de meus sonhos, os mais belos.
Faz parte dessa vida o vil desmando.
Qual pássaros libertos que voando
Sem asas, pois partiram por cutelo,
Em mágicos desvios, arrastando
As cores do arrebol pro amarelo.
Ruem-se ao chão meus halos num comando,
Sem risos, boca pálida em flagelo.
E o pôr-do-sol sem cor não é singelo.
A noite mias quimeras vai levando,
Inúteis meus quereres são-me quando
Só uma saudade morta é o meu anelo.
E vão-se, um a um, se desmanchando,
Declínio de meus sonhos, os mais belos.
Faz parte dessa vida o vil desmando.
Qual pássaros libertos que voando
Sem asas, pois partiram por cutelo,
Em mágicos desvios, arrastando
As cores do arrebol pro amarelo.
Ruem-se ao chão meus halos num comando,
Sem risos, boca pálida em flagelo.
E o pôr-do-sol sem cor não é singelo.
A noite mias quimeras vai levando,
Inúteis meus quereres são-me quando
Só uma saudade morta é o meu anelo.
Negra Sombra
"O espírito característico do firmamento manifestava-se, não somente no orbe físico da Terra, mas nas almas, imaginações e meditações da humanidade.” (Edgar Allan Poe)
No céu, os astros pra posteridade,
Só prenunciavam peste e mil terrores.
Nós, seres sufocados de ansiedade,
Cansados e oprimidos, meio às dores.
A negra sombra vinha-nos, senhores,
E já invadia as portas da cidade.
Doença e surto de cruéis pavores,
Seus olhos espelhavam iniqüidade.
Imensa a dimensão da enfermidade,
Nós, mórbidos, cobertos de palores,
Tão parvos, e em vã bestialidade!
Trazia a voz de muitas entidades,
Com sons que confundiam e os odores
Da morte, submundo do deus Hades.
No céu, os astros pra posteridade,
Só prenunciavam peste e mil terrores.
Nós, seres sufocados de ansiedade,
Cansados e oprimidos, meio às dores.
A negra sombra vinha-nos, senhores,
E já invadia as portas da cidade.
Doença e surto de cruéis pavores,
Seus olhos espelhavam iniqüidade.
Imensa a dimensão da enfermidade,
Nós, mórbidos, cobertos de palores,
Tão parvos, e em vã bestialidade!
Trazia a voz de muitas entidades,
Com sons que confundiam e os odores
Da morte, submundo do deus Hades.
Arestas
Em mim, são chagas mil que não se curam,
Sou filha de um destino mal fadado.
Tão duras, tristes mágoas que perfuram
Meu pobre coração amargurado.
E some, pouco a pouco, em mim teu nome
Silente, minha alma só padece
D’um mal que toma conta e me consome,
Que vaga por meus vãos, não arrefece.
Eu tento ressurgir em tal vicejo,
Calada então aparo essas arestas...
Mas no meu peito a dor, sempre um latejo.
Daquilo que eu amei já só me resta
Um sopro tão pequeno, tão sem pejo,
Qual rosa que murchou depois da festa.
Sou filha de um destino mal fadado.
Tão duras, tristes mágoas que perfuram
Meu pobre coração amargurado.
E some, pouco a pouco, em mim teu nome
Silente, minha alma só padece
D’um mal que toma conta e me consome,
Que vaga por meus vãos, não arrefece.
Eu tento ressurgir em tal vicejo,
Calada então aparo essas arestas...
Mas no meu peito a dor, sempre um latejo.
Daquilo que eu amei já só me resta
Um sopro tão pequeno, tão sem pejo,
Qual rosa que murchou depois da festa.
Retalhos
Quero da vida somente o bastante.
Possa eu vivê-la do jeito que vaga
A expectativa que agora me afaga,
Ao rés de sonhos e raros instantes.
Crepite dentro de mim uma chama,
Inspiração pra que eu saiba sofrer.
Dela que eu possa sorver o prazer,
Como quem chora e padece, mas ama...
Nada perturbe esse findo presente,
Na solidão do meu íntimo abrigo,
Que é onde escondo o pesar mais silente.
Preso em minh’alma o atroz inimigo,
Eu, triste e só, cá bem dentro da mente,
Possa viver de ilusão, sem perigo.
Possa eu vivê-la do jeito que vaga
A expectativa que agora me afaga,
Ao rés de sonhos e raros instantes.
Crepite dentro de mim uma chama,
Inspiração pra que eu saiba sofrer.
Dela que eu possa sorver o prazer,
Como quem chora e padece, mas ama...
Nada perturbe esse findo presente,
Na solidão do meu íntimo abrigo,
Que é onde escondo o pesar mais silente.
Preso em minh’alma o atroz inimigo,
Eu, triste e só, cá bem dentro da mente,
Possa viver de ilusão, sem perigo.
Meros Arquejos
Há veios de anseios nas aras
Dos parcos e esparsos solfejos
Que entôo, em notas tão caras
Qual súplicas, meros arquejos.
Procuro canções em searas,
Aquelas que sinto e que vejo;
Que cheguem-me puras e claras
E banhem-me a alma no ensejo.
Somente as encontro em escaras,
Sem lira, sem rimas... sobejos...
Canônico som que não pára,
Que fere os ouvidos sem pejo,
Avilta a ferida e não sara,
Transforma o suspiro em bafejo.
Dos parcos e esparsos solfejos
Que entôo, em notas tão caras
Qual súplicas, meros arquejos.
Procuro canções em searas,
Aquelas que sinto e que vejo;
Que cheguem-me puras e claras
E banhem-me a alma no ensejo.
Somente as encontro em escaras,
Sem lira, sem rimas... sobejos...
Canônico som que não pára,
Que fere os ouvidos sem pejo,
Avilta a ferida e não sara,
Transforma o suspiro em bafejo.
Transmutação
Em tempo saberei, foi breve a vida
E tão antiga a sombra aquém do fim.
Cruel e vã demais pra ser guarida,
A morte me aproxima mais de mim.
Meus olhos fecharão à realidade,
Sequer no inconsciente irei estar.
Despertarei, em sã bestialidade,
Os ecos de um vazio a ressoar.
Acabrunhada e só, planando ao léu,
Profundo abismo, inerte, saltarei.
Extraviada entre o inferno e o céu.
Minh’alma, que era eterna, perderei.
Então se rasgará do tempo, o véu
E o que eu pensava ser já não serei.
E tão antiga a sombra aquém do fim.
Cruel e vã demais pra ser guarida,
A morte me aproxima mais de mim.
Meus olhos fecharão à realidade,
Sequer no inconsciente irei estar.
Despertarei, em sã bestialidade,
Os ecos de um vazio a ressoar.
Acabrunhada e só, planando ao léu,
Profundo abismo, inerte, saltarei.
Extraviada entre o inferno e o céu.
Minh’alma, que era eterna, perderei.
Então se rasgará do tempo, o véu
E o que eu pensava ser já não serei.
Abstrato
Vejo-o sonoro e o ouço colorido,
Sinto dele o cheiro, na ausência do tato.
Eu o falo, textualizado em tecido,
Saboreio-o, como ao som de um regato.
Ao ver, por si só, meus sensos confundidos,
Toco, vejo, ouço – e a tudo isso eu acato.
Eu respiro e ando em seus cinco sentidos,
Ele cala nos meus, que não são exatos.
Juntando-os todos ao desconhecido,
Percebo o que é, de nós dois, o retrato.
Dissonância nos tons - bemol, sustenido? –
Perspectiva vã d’um conceito abstrato...
Sinto dele o cheiro, na ausência do tato.
Eu o falo, textualizado em tecido,
Saboreio-o, como ao som de um regato.
Ao ver, por si só, meus sensos confundidos,
Toco, vejo, ouço – e a tudo isso eu acato.
Eu respiro e ando em seus cinco sentidos,
Ele cala nos meus, que não são exatos.
Juntando-os todos ao desconhecido,
Percebo o que é, de nós dois, o retrato.
Dissonância nos tons - bemol, sustenido? –
Perspectiva vã d’um conceito abstrato...
Decrepitude
O tempo fez em mim os seus estragos:
Flor murcha, alma ferida, asa quebrada.
Eu, hoje, sem carinho e sem afagos,
Outrora, até podia ser amada.
De mim, a juventude, num crescendo,
Esvai-se em cotidiano desencanto.
Ausências, solidões se vão tecendo,
Deixando-me somente mágoa e pranto.
Segredos esquecidos e eu calada,
Janelas se fechando pro horizonte,
Mil sonhos se perdendo nessa estrada.
Minh’alma é imortal e se faz ponte,
E eu preciso aprender novas toadas,
Bem antes qu’outra vida em mim desponte.
Flor murcha, alma ferida, asa quebrada.
Eu, hoje, sem carinho e sem afagos,
Outrora, até podia ser amada.
De mim, a juventude, num crescendo,
Esvai-se em cotidiano desencanto.
Ausências, solidões se vão tecendo,
Deixando-me somente mágoa e pranto.
Segredos esquecidos e eu calada,
Janelas se fechando pro horizonte,
Mil sonhos se perdendo nessa estrada.
Minh’alma é imortal e se faz ponte,
E eu preciso aprender novas toadas,
Bem antes qu’outra vida em mim desponte.
Lua e Terra
Trago nos olhos a lua e o desejo,
Colho palavras, mas só como enfeite.
Eu busco em letras os supostos beijos,
Carinho nas rimas é o meu deleite.
Porém há um homem de terra e argila,
Os seus pedaços, no barro, sulcados.
E há esse sol que satura e cintila,
Num outro solo, os pés dele plantados.
Pois eu queria esse ser sem requinte
- Ele cheira a suor e a cerveja –
E eu o faria feliz por acinte.
Mas não sou sua e talvez nunca seja,
Nos sonhos dele sequer eu habite,
E pode ser que ele nunca me veja...
Colho palavras, mas só como enfeite.
Eu busco em letras os supostos beijos,
Carinho nas rimas é o meu deleite.
Porém há um homem de terra e argila,
Os seus pedaços, no barro, sulcados.
E há esse sol que satura e cintila,
Num outro solo, os pés dele plantados.
Pois eu queria esse ser sem requinte
- Ele cheira a suor e a cerveja –
E eu o faria feliz por acinte.
Mas não sou sua e talvez nunca seja,
Nos sonhos dele sequer eu habite,
E pode ser que ele nunca me veja...
Flor e Inseto
Ao descerrar os olhos então vejo
Que tudo à minha volta é só afeto.
A natureza se expande em desejo
E unem-se flor a flor, inseto a inseto.
As borboletas, seus corpos são preces,
Mistério que aflora em cobiça advinda.
Ferve-me o sangue e a alma amortece,
Ante a pompa dessa fauna qu’é infinda.
Eu sinto o ardor que percorre o arvoredo,
Sorvo a volúpia até que ela me aqueça.
Fecho os olhos pra que desapareça
E eis que mantenho comigo o segredo.
Guardo a paixão em meu peito, por medo
Que o simples fato de eu dá-la a empobreça.
Ao descerrar os olhos então vejo
Que tudo à minha volta é só afeto.
A natureza se expande em desejo
E unem-se flor a flor, inseto a inseto.
As borboletas, seus corpos são preces,
Mistério que aflora em cobiça advinda.
Ferve-me o sangue e a alma amortece,
Ante a pompa dessa fauna qu’é infinda.
Eu sinto o ardor que percorre o arvoredo,
Sorvo a volúpia até que ela me aqueça.
Fecho os olhos pra que desapareça
E eis que mantenho comigo o segredo.
Guardo a paixão em meu peito, por medo
Que o simples fato de eu dá-la a empobreça.
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